Riscos de conformidade na aquisição de imóveis com alterações estruturais não averbadas na matrícula

Riscos de conformidade na aquisição de imóveis com alterações estruturais não averbadas na matrícula

Imagine que você encontrou o apartamento dos seus sonhos. A localização é perfeita, o preço está dentro do orçamento e a vista da sacada convenceu a família inteira. Durante a visita, o corretor menciona que o proprietário anterior fez uma “pequena reforma” para integrar a varanda à sala, criando um espaço gourmet amplo e moderno. Tudo parece impecável até o momento em que você chega ao cartório e descobre que aquela parede derrubada e o fechamento da área nunca foram averbados na matrícula do imóvel.

A euforia da compra dá lugar a uma dúvida paralisante. O que parece apenas uma formalidade burocrática pode se transformar em um pesadelo financeiro e jurídico se não for tratado com a devida atenção antes da assinatura da escritura pública.

O impacto prático da falta de averbação

Quando um imóvel passa por alterações estruturais — como a ampliação de uma suíte, a cobertura de uma área externa ou a demolição de paredes que sustentavam parte da estrutura —, a prefeitura e o cartório de registro de imóveis precisam ser notificados. Se o que consta na planta aprovada na prefeitura e na matrícula do imóvel não condiz com a realidade física, você está comprando um problema.

Muitos compradores ignoram isso acreditando que “todo mundo faz” ou que isso não trará consequências. No entanto, o primeiro choque acontece no pedido de financiamento bancário. O banco enviará um engenheiro para realizar a avaliação do imóvel. Se o laudo técnico constatar que a metragem quadrada ou a configuração do imóvel é diferente da que está registrada no cartório, o banco pode simplesmente negar o crédito. A instituição financeira não financia um bem que está em desacordo com a documentação oficial.

Por que a conformidade vai além do papel

O risco não é apenas bancário. A falta de averbação coloca o proprietário em uma posição vulnerável perante o condomínio e a fiscalização municipal. Em prédios, alterações estruturais feitas sem o acompanhamento de um engenheiro ou sem a devida autorização do síndico podem comprometer a segurança da edificação. Se uma estrutura ceder, a responsabilidade civil e criminal recairá sobre quem detém a posse do imóvel no momento do sinistro, independentemente de quem executou a obra.

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Além disso, há a questão da revenda. Tentar vender um imóvel com documentação irregular limita drasticamente o seu público comprador. Você perderá interessados que dependem de financiamento ou que são cautelosos com questões jurídicas. Acaba sendo uma estratégia de venda que, lá na frente, forçará você a aceitar um preço menor do que o imóvel realmente valeria se estivesse regularizado.

Estratégias para mitigar riscos na negociação

Se você identificou uma alteração não averbada, o primeiro passo é não seguir com a compra sem antes alinhar os custos da regularização. Aqui estão alguns caminhos comuns para contornar essa situação:

Exigir que o vendedor regularize o imóvel antes da lavratura da escritura, arcando com todos os custos de prefeitura, engenharia e taxas cartoriais.

Negociar um abatimento significativo no valor final de venda, assumindo você a responsabilidade pelo processo de regularização após a compra.

Incluir cláusulas suspensivas no contrato de compra e venda, garantindo que o pagamento final ou a posse só ocorram mediante a comprovação da averbação da nova área ou estrutura.

Vale lembrar que o processo de regularização não é instantâneo. Envolve consulta à prefeitura, emissão de novos documentos, habite-se retificador e, por fim, a atualização no Registro de Imóveis. Ignorar a realidade física de um imóvel em nome da pressa ou da facilidade é um erro clássico que costuma custar muito caro. Ter o suporte de um corretor de imóveis experiente e, preferencialmente, uma análise jurídica prévia, é o que separa um investimento seguro de um passivo de longo prazo. Antes de assinar qualquer documento, peça a matrícula atualizada e compare cada centímetro com o que você está vendo diante dos seus olhos. Se os números não batem, pare e reavalie.